Grupo Um | A Vanguarda do Jazz Brasileiro

1976 – 1984

Componentes:
Lelo Nazario | piano acústico e elétrico, teclados
e processos eletrônicos
Zé Eduardo Nazario | bateria, percussão
Zeca Assumpção, Rodolfo Stroeter | baixo





Convidados:
Roberto Sion, Mauro Senise, Teco Cardoso | saxes
e flautas
Felix Wagner | piano acústico e elétrico, clarineta
Carlinhos Gonçalves | percussão
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Grupo Um no MASP em 1980
O Grupo Um é considerado pela crítica um dos mais ousados, densos e radicais experimentos sonoros já empreendidos no Brasil. Formado em 1976 pelo pianista e compositor Lelo Nazario e pelo baterista e percussionista Zé Eduardo Nazario, que, na época, atuavam na banda de Hermeto Pascoal, o grupo se destacava como um representante de ponta da vanguarda surgida em torno do Teatro Lira Paulistana, combinando a riqueza rítmica da música popular com linguagens contemporâneas.

“Naquela época, tanto a linguagem da música eletrônica e eletroacústica quanto o uso da percussão de ponta já nos eram habituais, de forma que todas as nossas composições e arranjos possuíam uma identidade própria”, conta Zé Eduardo. Liderado pelos irmãos Nazario, o conjunto atuou até 1984 e contou com a participação dos baixistas Zeca Assumpção e Rodolfo Stroeter, do percussionista Carlinhos Gonçalves, dos saxofonistas Roberto Sion, Mauro Senise e Teco Cardoso, e ainda do pianista Felix Wagner.

Em diferentes formações, o grupo lançou três álbuns que mostram uma linguagem própria, aberta e contemporânea. Juntos, formam uma obra consistente e refletem uma concepção arrojada e uma proposta estética inovadora que expressam as marcas e questões do nosso tempo. “A música do grupo é música brasileira do tempo presente, multidimensional e transformadora”, disse Lelo Nazario à época, que assinou a maioria das composições tocadas pelo grupo.

A música nova e independente do Grupo Um conquistou uma audiência considerável nas principais cidades brasileiras e despertou o interesse imediato da crítica especializada, que lhe dedicou elogios entusiasmados nos mais importantes veículos da imprensa nacional, projetando o conjunto num plano de destaque da criação musical mais avançada da década de 1980.

Seu álbum de estreia lançado em 1980, Marcha Sobre a Cidade, foi o primeiro LP instrumental independente produzido no país, considerado como um dos registros mais importantes da música instrumental brasileira. Marcha foi aclamado pelo público e recebido pela crítica como “verdadeiro manifesto free”, “um jazz criativo que desconhece barreiras” e que “representa um passo à frente na música instrumental no Brasil”. Um disco “para quem não parou no tempo”.

Essa projeção no cenário musical brasileiro logo se estendeu à Europa, onde o grupo lançou Marcha Sobre a Cidade pela gravadora francesa Syracuse em 1983 e realizou uma série de apresentações, incluindo concertos na então famosa casa de jazz New Morning, em Paris, na Radio France e no Festival de Jazz de Grenoble.

Além de uma música consistente e densa, que incorporava elementos contemporâneos do jazz e da música erudita e uma rítmica moderna com raízes tradicionais, o Grupo Um foi reconhecido pelo talento e versatilidade de seus integrantes. Uma das características do grupo era, justamente, a colaboração de cada músico na realização dos temas, seja nas improvisações coletivas ou sugerindo novos motivos. Em março de 1980, em resenha intitulada “Um grupo de vanguarda”, a respeito do disco Marcha Sobre a Cidade, o crítico José Domingos Raffaelli destacou “a maturidade dos músicos”, que lhes permitia “todo o tipo de liberdades melódicas, rítmicas e sonoras, explorando habilmente as facetas de cada composição”.

Em entrevista ao semanário de música Canja, em julho daquele ano, o compositor Lelo Nazario sintetizou seu processo de trabalho no grupo: “eu faço música erudita, mas deixo certa margem de liberdade para a improvisação. É por essas pequenas brechas que entram os elementos jazzísticos próprios da formação musical de alguns instrumentistas, como o Zé Eduardo ou o Mauro Senise”.

Em 1981, foi a vez de Reflexões Sobre a Crise do Desejo, também uma produção independente. Segundo Lelo, o disco reafirmava “o compromisso do Grupo Um com essa mistura especial de música de vanguarda, o jazz e a música brasileira contemporânea”. Reconhecido pela revista Manchete como um dos dez melhores álbuns lançados naquele ano, aqui, o conjunto desenvolveu alguns de seus temas mais complexos, reunindo composições extremamente elaboradas com uma técnica musical incrivelmente apurada, atingindo resultados impressionantes. Para o crítico João Marcos Coelho, da Folha de S. Paulo, o Grupo Um se afirmava “como o mais fecundo núcleo de criação, porque mergulhou numa produção musical sistemática, sem concessões”.


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Seu terceiro álbum, A Flor de Plástico Incinerada, foi lançado pelo selo Lira Instrumental em 1983. Seguindo os passos dos discos anteriores, aqui o grupo aprofunda o uso de sons eletrônicos/concretos e sintetizadores combinados com instrumentos acústicos, uma tendência iniciada em Reflexões e uma grande inovação à época. Roberto Muggiati, crítico da Manchete, escreveu na ocasião que A Flor se mostrava “mais comprometido com a música instrumental contemporânea, sem nenhum sotaque, incursionando pela música de vanguarda, sem cair na monotonia”.

Após completar um ciclo de intensa criação, o Grupo Um se dissolveu em 1984. Em oito anos de atividades, o grupo, que viera anunciar uma era de inquestionável inventividade e pioneirismo, avançou as fronteiras da produção independente e da moderna música instrumental brasileira. Sua trajetória representou uma abertura para o músico brasileiro e estabeleceu um novo padrão de criação, dando origem a uma lenda.

Quase quarenta anos após o surgimento do grupo, seus álbuns foram relançados em formato digital pelo selo Editio Princeps. Nas gravações, agora resgatadas, é fácil ver por que o conjunto permanece o mais fecundo e ousado núcleo de criação da música de vanguarda no Brasil. Marcado por um pensamento musical altamente estruturado, por um experimentalismo de ponta e por uma total liberdade criativa, o grupo sintetizou a busca constante e sem concessões por uma música essencialmente brasileira e contemporânea, cujo resultado chega até hoje insuperável e atemporal.

Mesmo após décadas de sua dissolução, o Grupo Um representa, ontem e hoje, a vertente mais ousada e moderna da música brasileira.